Hangar Náutico da UFRJ – Primavera dos Museus – 2026
Programação gratuita integra a Primavera dos Museus e reúne fotografia, memória, saberes tradicionais, educação ambiental, ciência e participação das comunidades pesqueiras
Em setembro de 2026, o Museu Vivo do Mar, iniciativa vinculada ao Programa de Extensão Tecnologia Social e Ciências do Mar – TSCM/NIDES/UFRJ, realiza uma programação dedicada ao Patrimônio Natural da Baía de Guanabara. A agenda reúne a exposição itinerante “Culturas Pesqueiras Artesanais na Baía de Guanabara” e o II Encontro do Museu Vivo do Mar, aproximando universidade, comunidades pesqueiras, escolas, pesquisadores, movimentos sociais e o público em geral.
Contemplada pelo Edital Culturas Pesqueiras Artesanais do Brasil, a exposição acontece na Primavera dos Museus, mobilização nacional promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus – Ibram. Gratuita e aberta ao público, a mostra circulará por três espaços: o Hangar Náutico da UFRJ, na Cidade Universitária, o Colégio Estadual Professor João Borges de Moraes, na Maré, e uma Associação de Pescadores, reforçando o caráter itinerante e comunitário da proposta.

Foto: Francisco Roberto Peres dos Santos “Catito”. Autora: Daniele Minussi / Escola Popular dos Povos do Mar (2025)
A proposta busca descentralizar a programação cultural e aproximar o Museu de seus públicos na região metropolitana do Rio de Janeiro. Mais do que reunir objetos ligados à atividade pesqueira, a exposição propõe uma leitura da Baía a partir de quem vive, trabalha e produz conhecimentos em suas águas. Fotografias, registros audiovisuais, apetrechos de pesca, embarcações, ferramentas, mapas, instalações artísticas e recursos interativos compõem um percurso que articula território, trabalho, memória, saberes tradicionais, técnicas de pesca, biodiversidade e transformações socioambientais.
Uma exposição para ver, ouvir, tocar e conversar
A proposta expográfica foi concebida para estimular a participação do público. Entre os núcleos previstos está o jogo “Como se pesca? Onde se pesca?”, no qual estudantes, jovens e adultos relacionam diferentes modalidades de pesca artesanal ao território da Baía de Guanabara. Em vez de trabalhar com respostas rígidas de certo ou errado, a atividade utiliza o mapa como ponto de partida para conversar sobre os conhecimentos dos pescadores, as características dos ambientes e as práticas realizadas em diferentes localidades.

Ilustração do jogo “Como se pesca? Onde se pesca?” — imagem gerada por IA. Mapa original: “Cartografia da Ação Social e os espaços que a pesca artesanal ocupa na Baía de Guanabara” | autoria: PEA-BG.
Outro dispositivo participativo é o Totem Interativo “Nós que Atam”, no qual o visitante poderá conhecer os diversos usos de nós aplicados a cada necessidade e experimentar as amarrações tradicionalmente utilizadas na marinharia, como o Lais de Guia, o Nó Direito e o Nó Oito.
A fotografia ocupa lugar de destaque no percurso. O núcleo expositivo “Nós somos os olhos da Baía de Guanabara” apresentará imagens suspensas em bandeiras, reunindo imagens de pescadores da Baía em situações de trabalho, do pescado e da biodiversidade associada aos ambientes costeiros. O núcleo busca dar visibilidade a quem produz alimento, conhecimento, memória e cultura a partir das águas da Baía de Guanabara.

Já a mostra “Em Concha”, fotolivro do fotógrafo Márcio Menasce, apresenta uma narrativa visual poética sobre os catadores de mariscos da Baía de Guanabara. Construído a partir do acompanhamento da rotina desses trabalhadores desde 2017, o trabalho cria uma atmosfera imagética melancólica e sensível, aproximando a experiência fotográfica das transformações vividas pela maricultura, entre memórias, permanências e impactos do presente.

Autor: Márcio Menasce | Fotolivro “Em Concha”.
A exposição também dedica espaço à reflexão ambiental. A instalação artística “Meu sonho é pescar mais peixe do que lixo” reunirá resíduos, redes, linhas e outros materiais para chamar atenção para a poluição marinha e, especialmente, para a chamada pesca fantasma, provocada por equipamentos de pesca perdidos, abandonados ou descartados que permanecem no ambiente e continuam afetando a fauna e as atividades pesqueiras.
Museu construído com os povos das águas
A concepção do Museu Vivo do Mar parte de metodologias participativas nas quais pescadores, catadores de caranguejo e marisqueiros não são apenas personagens da exposição, mas participantes ativos de sua construção curatorial. Parte dos apetrechos e objetos apresentados será proveniente de empréstimos realizados pelos próprios detentores dos bens, acompanhados de informações sobre origem, utilização, território e conhecimentos associados. O objetivo é produzir uma narrativa em que os objetos apareçam contextualizados pelas práticas, pelos sujeitos e pelas histórias que lhes dão significado.
II Encontro amplia diálogo entre universidade e comunidades
A programação também contará com o II Encontro do Museu Vivo do Mar, dando continuidade ao processo iniciado na primeira edição, realizada em 2025. O encontro inclui uma devolutiva sobre o Plano Museológico Participativo do Museu . Esse processo busca pesquisar, preservar, valorizar, comunicar e difundir memórias populares, práticas do saber-fazer e tecnologias sociais relacionadas às Ciências do Mar, promovendo a produção e a socialização do conhecimento por meio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão universitária, fortalecendo a cultura marítima e contribuindo para a compreensão e a preservação do ambiente costeiro.

Imagem: I Encontro do Museu Vivo do Mar, realizado em 2025.
“Algumas práticas da pesca, sobretudo aquelas vinculadas à pesca artesanal ainda praticada na Baía de Guanabara, reúnem técnicas, métodos e saberes que podem ser compreendidos como tecnologias sociais, por estarem diretamente associados ao território e desempenharem importante função social. A pesca artesanal possui forte integração comunitária, base familiar, caráter multigeracional e participação de diferentes gêneros, articulando relações historicamente construídas com os ecossistemas da Baía”, explica o pesquisador Fellipe Redó.
Ciência e saberes tradicionais no mesmo território
A iniciativa dialoga ainda com os princípios da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021–2030), ao estimular a aproximação entre ciência, sociedade e políticas públicas na busca por oceanos mais limpos, saudáveis, resilientes e produtivos. Parte também da compreensão de que somos influenciados pelo mar e, ao mesmo tempo, nossas ações interferem diretamente em suas condições ambientais.
